Da Lenda de Quiva e Laiá à Invisibilidade das Calçadas: Conto de Aline Lourenço Humaniza a Luta da População de Rua em Itaguaí

ITAGUAÍ – O asfalto que corta o centro urbano e as periferias de Itaguaí não é apenas uma via de tráfego; para milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade, ele se tornou teto e testemunha de uma realidade invisibilizada. Neste 19 de agosto, data que marca o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, a discussão ganha um forte aliado na literatura de resistência. O conto “Pelas Ruas”, da escritora Aline Lourenço, publicado na tradicional antologia Cadernos Negros, propõe um debate urgente ao cruzar a ficção, a denúncia social e a memória histórica da Baixada Fluminense.
*O Olhar de Lucas e a Crônica do Abandono*
A narrativa é conduzida pelos olhos atentos do menino Lucas, cuja família enfrenta a crueza do relento e a luta diária pela sobrevivência nas calçadas de Itaguaí. Longe de ser um mero relato de privações, a obra utiliza o ponto de vista da criança para construir uma crônica viva do município. Enquanto caminha, Lucas rememora fatos históricos locais, revelando que as populações marginalizadas não estão à margem do tempo, mas sim profundamente entrelaçadas à construção do território.
A vulnerabilidade social, retratada na obra como uma condição imposta pela desigualdade crônica e não como uma escolha, ganha contornos de denúncia contra a aporofobia — a aversão aos mais pobres. O texto jornalístico-literário de Lourenço humaniza os corpos que a pressa cotidiana costuma ignorar, devolvendo-lhes o nome, a história e a subjetividade.
*Ancestralidade e Contradição Mítica*
O grande ápice reflexivo do conto reside na identidade dos personagens, que carregam as raízes da ancestralidade local. A autora insere uma provocação estética e política ao conferir a Lucas um sobrenome que faz referência direta à célebre Lenda de Quiva e Laiá, o mito fundador indígena de Itaguaí.
Essa escolha cria uma contradição dilacerante para o leitor: o herdeiro legítimo da memória histórica e cultural da região é tratado como um estrangeiro desabrigado em seu próprio chão. Ao evocar o passado mítico, “Pelas Ruas” confronta o presente de exclusão urbana e questiona a quem pertence, afinal, o direito à cidade.
*A Escrita como Trincheira*
Para movimentos sociais e especialistas em políticas públicas, o resgate promovido por Aline Lourenço nos Cadernos Negros reforça que o combate à invisibilidade exige mais do que ações paliativas. A literatura se posiciona aqui como uma trincheira política. Ao pautar o direito à moradia, à saúde e ao respeito a partir da identidade local, a obra lembra que a rua é uma situação temporária de violação de direitos, mas a dignidade e a memória de um povo são inalienáveis.

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Sobre Luzia Moraes 5.646 Artigos
Luzia Moraes é produtora cultural, ativista humanitária e escritora, formada em Comunicação Social. Já produziu festivais gastronômicos, exposições de fotografia e artes plásticas, eventos em quase todo o Brasil. No exterior participou de projetos importantes em Portugal, Estados Unidos, França, Suíça, Áustria, Alemanha, Espanha, Itália e Bélgica. Em 2012, foi considerada pelo Portal GI (globo.com) como uma das mulheres de destaque no cenário cultural baiano. Desfilou como “destaque” no carro alegórico da escola de samba “Portela” no Rio de Janeiro, em homenagem à Bahia (2012) e em 2014 na escola Mocidade Alegre, em São Paulo, no 4 carro alegórico. No socioambiental já participou de campanhas importantes como: "Vote Cataratas do Iguaçu", "Dia da Amazônia", “Abrace a Vida”, “Maraú Social”, “Outubro Rosa”, “Instituto Sangue é Vida”, “Natal Sem Fome”, "Vermelho Bahia", *Perspectivas em Movimento*, “Carnaval Sem Fome”, "Balaio Verde" e ”Pedophilia No World”. Foi *madrinhas* durante dois anos da Campanha *Mc Dia Feliz* pela unidade McDonald's de Villas do Atlântico. Entre as muitas homenagens, Luzia virou nome de pratos de drinks em renomados e premiados bares e restaurantes de Salvador,
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