Projeto criado pelo escritor Bruno Black, na Comunidade do Fumacê, em Realengo, lança segundo volume de seu livro coletivo durante a Bienal de São Paulo e proporciona a participantes uma experiência que vai muito além da literatura
O que acontece quando um projeto literário que nasce dentro de uma comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro atravessa fronteiras e chega a um dos maiores eventos literários do país? Para o Clube das Palavras do Bruno Black, a resposta está nas pessoas, nos encontros e na possibilidade de ocupar espaços que, durante muito tempo, pareceram distantes de suas realidades.
No dia 5 de setembro de 2026, integrantes do Clube das Palavras estiveram na Bienal do Livro de São Paulo para o lançamento do segundo volume do livro coletivo do projeto, publicado com o apoio da Editora Conejo.
Mais do que lançar um livro, o grupo viveu um momento histórico.
Entre os participantes estavam pessoas vindas de Realengo e de diferentes territórios do Rio de Janeiro, algumas delas vivendo pela primeira vez a experiência de sair do estado e conhecer São Paulo. A viagem transformou-se, assim, em uma extensão do próprio projeto: uma oportunidade de ampliar horizontes, conhecer novos lugares, encontrar leitores e escritores e, principalmente, perceber que também existe lugar para a periferia nos grandes espaços da cultura brasileira.
Criado pelo escritor, poeta, produtor cultural e agente literário Bruno Black, o Clube das Palavras acontece dentro da Comunidade do Fumacê, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro. O projeto reúne adolescentes, jovens e adultos em torno da literatura, da leitura, da escrita, da convivência e da construção coletiva.
É um clube que nasceu no território, mas que não aceita que seus participantes sejam limitados por ele.
A presença na Bienal de São Paulo simboliza exatamente isso.
Para Bruno Black, levar os integrantes do Clube das Palavras para um evento desse porte significa assumir uma responsabilidade que ultrapassa a publicação de livros.
“Quando uma pessoa que nunca saiu do Rio de Janeiro consegue chegar a São Paulo para lançar um livro que ela ajudou a construir, alguma coisa muda dentro dela. Ela passa a enxergar outras possibilidades. E isso também muda a forma como ela olha para o próprio território”, resume o escritor.
A emoção esteve presente em cada etapa. O livro, que reúne diferentes vozes e experiências, deixou de ser apenas uma publicação para se transformar em uma espécie de passaporte simbólico. Seus autores e participantes puderam ocupar a Bienal não apenas como visitantes, mas como autores, produtores de cultura e protagonistas de suas próprias histórias.
E existe uma força especial nesse caminho: o livro saiu de uma comunidade do Rio de Janeiro e chegou à Bienal de São Paulo carregando consigo as histórias, os sonhos e a identidade de um território periférico.
A iniciativa também revela a importância de projetos literários que descentralizam o acesso à cultura. Para muitos participantes, estar na Bienal significou atravessar uma barreira que não era apenas geográfica, mas também social e simbólica.
Sair do território para ocupar outros espaços sem deixar o território para trás.
Essa talvez seja uma das maiores potências do Clube das Palavras.
O projeto mostra que a literatura pode ser ferramenta de circulação, encontro, autoestima e transformação. Pode fazer com que alguém que sempre se enxergou como espectador passe a se reconhecer como autor. Pode levar uma voz que nasceu em uma comunidade para lugares onde ela talvez nunca tivesse imaginado chegar.
Na Bienal de São Paulo, o Clube das Palavras levou muito mais do que livros.
Levou o Fumacê.
Levou Realengo.
Levou a Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Levou seus autores, suas histórias e seus sonhos.
E levou também uma mensagem poderosa: a periferia não quer apenas ser representada. Ela quer
