Antes de Camaçari se tornar o município que é hoje, a história começou a ser escrita em Vila de Abrantes. Criado em 1558 pelos padres jesuítas, o distrito carrega séculos de histórias, tradições e moradores que ajudaram a construir a identidade de toda a região. É essa identidade que ganha destaque na quarta reportagem da série “Camaçari 268 anos: Saberes dos Territórios”.
A história de Abrantes é feita de pessoas que dedicaram a vida à comunidade. Entre elas está a professora Rosalina Costa de Paula, que encontrou na educação uma forma de transformar a vida de outras pessoas. Além de professora, ela se tornou uma das principais rezadeiras da região. Aos 102 anos, Rosalina ainda vive no distrito e mantém vivo um legado inesquecível.
Neto de Rosalina, Welber de Paula destaca que ser professora sempre foi o sonho dela. “Sua grande contribuição para a comunidade foi a transformação das pessoas pela educação. Ela iniciou sua jornada em 1964, como professora da zona rural e hoje essa escola leva seu nome. Ela atuou como funcionária de serviços gerais, merendeira, até que realizou seu sonho de se tornar professora”, conta.
Um dos marcos da história de Rosalina foi quando a escola em que lecionava passou por reforma, e para que os alunos não ficassem sem aula, ela aplicou os conteúdos em sua casa.
“Uma mulher de fé e de coragem, que teve coragem de arregaçar as mangas e lutar pelo sonho de ser professora e melhorar a comunidade. Abrantes para ela era a vida dela, o centro de tudo. Uma pessoa que além de ser professora, era rezadeira e curandeira, então muitas pessoas a procuravam e guardam memórias com ela”, completa Welber.
Para ele, preservar essa memória também é uma forma de fortalecer o sentimento de pertencimento da população. “Abrantes já foi palco de muitas decisões importantes, principalmente pro município de Camaçari e é preciso intensificar a valorização dessa história, para que assim as próximas gerações possam dizer ‘eu sou filho de Abrantes, porque eu conheço a história de Abrantes’”.
A trajetória de Rosalina também inspira quem, hoje, tem na educação uma ferramenta para manter vivas as raízes do distrito. É o caso da professora de Língua Portuguesa Marize Vieira, que atua no Centro Educacional Marquês de Abrantes. Para ela, a história de Vila de Abrantes permanece viva justamente por meio das lembranças compartilhadas pela comunidade.
“Dona Rosalina fez 102 anos recentemente, e ela foi uma pessoa que contribuiu muito para Vila de Abrantes. Eu fico pensando na questão da comunidade, em como essas raízes, essa tradição, essa alegria de viver, apesar de sermos tão simples, é muito rica e faz a gente ter orgulho dessa nossa história”, afirma.
Marize acredita que a educação é uma das principais ferramentas para preservar a história de Abrantes. “Quando eu me formei professora, eu fiz questão de trabalhar na minha comunidade. Eu acredito muito na educação e quando a gente estuda a história de um local, a gente se apropria mais dessa história e começa a ter orgulho daquilo que a gente vive”, enfatiza a professora.
Para conhecer Vila de Abrantes, é preciso reconhecer a história de quem construiu a identidade da região, e de quem trabalha para manter vivo esse legado.

Fotos: Patrick Abreu e Cauê Soares
